Cirurgião oncológico com foco no paciente idoso, o Dr. Marcos Adriano Jota é Gerente Médico Nacional da MedSênior, onde coordena a cirurgia oncológica, os cuidados perioperatórios e os centros cirúrgicos próprios de toda a rede, sob a lógica da gestão do cuidado. É também Diretor Nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica e Green Belt em Lean Six Sigma. Nesta conversa, ele conta como saiu do bisturi para o que chama de gestão do cuidado, sem nunca deixar de ser médico.
Raiz
Por que medicina? Venho de uma família com médicos (minha madrinha, meu tio-avô), mas sem pai, mãe ou tios na profissão. Ainda assim, nos anos 1990 e início dos 2000, era natural: em Belém do Pará, toda família de classe média-alta queria um filho médico. Prestei vestibular em 2001, aos 17 anos, e passei de primeira. Entrei na Universidade Federal do Pará em maio de 2002, mais tarde que o normal, porque a faculdade vinha de uma greve enorme. Dezessete anos, primeira turma daquele semestre letivo, para fazer medicina.
Meus pais ficaram separados enquanto minha mãe ainda estava grávida, com meu pai biológico ausente em toda a minha criação. Mas cresci cercado pela família em Belém, e tive várias figuras paternas, sobretudo meu avô, Raul Ventura, e meu tio mais velho, Raul Ventura Filho, pilares da minha formação.
E, acima de tudo, minha mãe, a figura mais vital de todas. Sou filho único; ela foi meu alicerce, abdicou de tudo pela minha criação. Faleceu em julho de 2023, de câncer de pulmão, três dias depois do nascimento do meu filho mais novo.
Foi na faculdade que a cirurgia me pegou. Desde o segundo ano eu frequentava a “sutura”, como a gente chamava em Belém, o pronto-socorro de cirurgia, e me apaixonei pela agitação e pela imprevisibilidade do centro cirúrgico.
Formei-me em janeiro de 2008. Já decidido pela cirurgia geral, a especialidade básica, tomei uma decisão fora do óbvio: em vez de emendar a residência, trabalhei o primeiro ano inteiro. Queria entrar com um pé-de-meia, sem precisar trabalhar durante a residência, para me dedicar só aos estudos.
Passei 2008 “perambulando” pelos hospitais em Belém e no interior e, na virada para 2009, prestei prova de cirurgia geral. Só me inscrevi em duas cidades, São Paulo e Belém, e passei nas duas. Pelas raízes fortes com a Universidade Federal do Pará, onde me formei e fiz o internato no Hospital Universitário João de Barros Barreto, fiz a residência ali mesmo, em 2009 e 2010.
Terminada a cirurgia geral, tomei outra decisão importante: fazer a subespecialidade fora de casa. A ideia era ganhar outra visão, outra experiência, e voltar para trazer coisas novas à minha terra. Escolhi a cirurgia oncológica, prestei prova só em São Paulo, passei no Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho e me mudei para cá em janeiro de 2011. Pelas boas oportunidades que foram aparecendo e que fui conquistando, acabei decidido por permanecer em São Paulo e construir minha carreira por aqui.
Foi aí, na residência de Cirurgia Oncológica, que veio a primeira virada. Eu tinha escolhido a cirurgia oncológica imaginando o cirurgião completo, o cirurgião do corpo humano, que opera tudo de tudo. Mas, dentro da oncologia, encontrei algo maior: a ideia do cuidado global. Passamos por todas as cadeiras cirúrgicas na formação e dominamos técnica e tática, mas o cirurgião oncológico vai muito além disso. Ele entende a jornada inteira: o paciente, a família, os anseios, as dores, as demandas. O paciente oncológico é complexo e exige um cuidado à altura, completo, para alcançar os melhores desfechos.
O cirurgião oncológico não é só quem opera. Ele entende a jornada inteira: o paciente, a família, os anseios, as dores.
A virada
Ainda na residência, conheci o cirurgião Arnaldo Urbano, que me abriu grandes portas em São Paulo. Uma delas foi um convite que ele recebeu para o nosso grupo trabalhar numa operadora de saúde voltada ao paciente idoso.
Isso foi no fim de 2012, começo de 2013: a segunda grande virada. Foi quando juntei a complexidade da oncologia à complexidade do idoso. Percebi que esse cuidado, justamente por ser tão complexo, reúne o que a medicina tem de mais importante e mais belo. E entendi, na prática, o que o envelhecimento da população ia exigir: um cuidado cada vez mais especializado, completo e global.
Em 2016 veio a virada para a gestão. Fui convidado a coordenar a cirurgia oncológica da operadora, e aí entra a gestão do cuidado: gerir os pacientes ao longo de toda a jornada, gerir os processos em volta desse cuidado, gerir a equipe de saúde inteira. Essa foi a terceira virada, aquela em que saí um pouco do bisturi para uma visão mais ampla.
Eu era um carro que só enxergava a rodovia à frente. De repente virei um drone: subo, saio da pista e passo a ver tudo, podendo gerenciar cada etapa do cuidado.
O maior medo, ao entrar na gestão, era achar que eu me afastaria da medicina. É o oposto. A medicina, a oncologia, a cirurgia, a Oncogeriatria são a base da minha gestão. Por isso prefiro chamar de gestão do cuidado: o que faço é gerir o cuidado que entregamos ao paciente. Você não se afasta do seu core; passa a cuidar em outra escala. É por isso que me considero um gestor do cuidado.
Tive também que aprender do zero uma habilidade que a faculdade não ensina: resolver problemas complexos, mediar conflitos e conduzir conversas difíceis. Lidar com o problema complexo e com a conversa difícil já faz parte da formação do cirurgião oncológico, e amadureci essa liderança no cotidiano da oncologia e a aprimorei na gestão.
E um erro caro? Tentar agradar todo mundo. Durante um tempo eu quis ser o queridinho de todos, e isso é impossível. Só gera frustração, ainda mais com uma liderança de posicionamento: quando você se posiciona, pode eventualmente desagradar. Aprendi a conviver com isso. Sugiro que você aprenda também.
O que faço hoje
Antes de tudo, sigo cirurgião. Além de gerente médico nacional, continuo operando, com foco em cirurgia oncológica colorretal. Minha área é o paciente idoso: são quase 15 anos dedicados à oncogeriatria, desde que terminei a residência.
Na operadora anterior, comecei com um cargo regional em São Paulo e, com a expansão da empresa à época, assumi a especialidade em nível nacional. No fim de 2023, decidi por conta própria encerrar os 11 anos de dedicação iniciados em 2012, e logo no mês seguinte comecei a trajetória atual, na MedSênior. Entrei como cirurgião oncológico de referência em São Paulo, virei gestor do cuidado em cirurgia oncológica com ênfase no Espírito Santo e em São Paulo, depois coordenador nacional da especialidade. E então veio a quarta e última grande virada: por convite do Márcio Nascimento e do Cristiano Nascimento, assumi a gerência médica nacional de todos os centros cirúrgicos da rede própria da MedSênior.
Chamo de quarta virada porque acrescentei algo novo: a gestão de unidades fechadas. Até então eu geria o cuidado de uma especialidade, a cirurgia oncológica, transitando por várias unidades, porque um cuidado complexo exige isso. Agora, além da especialidade, cuido do centro cirúrgico e de tudo que o cerca: o agendamento cirúrgico, a central de esterilização, todas as equipes que operam nos nossos centros.
E isso ganhou escala nacional. Hoje coordeno as jornadas cirúrgicas em oncologia de todas as regionais (Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas e Recife) e sou gerente médico direto de 8 centros cirúrgicos da rede própria.
Dentro da oncologia, atuo hoje em duas frentes. A primeira é essa coordenação nacional da cirurgia oncológica. A segunda é o programa de navegação oncológica da MedSênior, que organizo desde o início: começamos há cerca de um ano, pelo câncer de mama, para estruturar toda a jornada do paciente, do diagnóstico ao tratamento, e entregar um cuidado mais integrado, mais ágil e mais completo.
Fora a MedSênior e o centro cirúrgico, tenho outras frentes. Sou diretor nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica há seis anos e integro o Steering Committee do grupo de Oncogeriatria do LACOG (Latin American Cooperative Oncology Group). Dou aulas e palestras em congressos e produzo conteúdo científico para a Nestlé Health Science. Tenho capítulos de livro e publicações em revistas como o Journal of Surgical Oncology, em cirurgia oncológica, nutrição e oncogeriatria. Sou Green Belt em Lean Six Sigma e curso um MBA em liderança, gestão de equipes e produtividade na PUC do Rio Grande do Sul. E, fora da medicina, sou sócio, com a minha esposa, de duas franquias da Amor aos Pedaços em São Paulo, e sócio-fundador da CSC Saúde Mais, focada em contabilidade, jurídico e financeiro para médicos.
Resultados concretos
Tenho alguns resultados concretos. Vou citar três.
O primeiro foi estruturar, na minha experiência anterior, toda a linha de cuidado cirúrgica em oncologia, do diagnóstico ao pré-operatório com pré-habilitação, ao intraoperatório e aos cuidados pós-alta. Montamos um protocolo de recuperação acelerada em cirurgia oncológica do paciente idoso. O resultado: saímos de 200 a 300 cirurgias por ano para 1.100 a 1.200, com diminuição da morbimortalidade. Esse trabalho rendeu diversas publicações, inclusive o prêmio, em 2019, de melhor trabalho entre os temas livres apresentados.
O segundo case, também na experiência anterior, foi em câncer colorretal, ao enxugar a jornada do paciente da colonoscopia até a cirurgia. Ele passava por sete locais em sete etapas. Cortamos o ziguezague para três etapas, com uma equipe de navegação estruturada para conduzir cada paciente.
O terceiro é o atual. Quando me convidaram para a gerência nacional dos centros cirúrgicos, me convidaram também para criar a posição do zero. Dessa estruturação nasceu uma rotina de reuniões mensais ancorada em indicadores de performance dos centros. O case é esse: eleger, definir, medir e apresentar esses indicadores, com faixas claras de performance, e rodar, mês a mês, o famoso PDCA (Plan, Do, Check, Act) para melhorar a nossa entrega de cuidado aos beneficiários e colaboradores.
Propósito e alta performance
Meu propósito começa na minha mãe. Sigo em frente por tudo o que ela almejou e por tudo pelo que lutou para me ver bem, dando certo na vida, feliz. Persisto para honrar o orgulho que ela tinha de mim.
E hoje esse propósito tem mais três nomes: minha esposa, Fernanda Souza, e meus filhos, Joana e Júlio. Além da força que herdei da minha mãe, é neles que me sustento, no compromisso de construir e entregar a eles um futuro de qualidade, com todas as oportunidades possíveis. Os três, junto da memória da minha mãe, são a minha força motriz. E, claro, sigo também pelo objetivo de entregar o melhor cuidado possível aos nossos pacientes e às suas famílias.
Do que não abro mão? Da rotina de exercícios. Treino todo dia. Quanto mais cuido do corpo e olho a vida com otimismo e esperança, melhor eu performo. Meu exercício principal é a corrida e, quando não corro, faço treino de fortalecimento. Gosto também de jogar futebol e tênis. Isso me dá disciplina e constância.
Quem cuida do corpo e da mente, com toda a certeza, entrega resultado no trabalho.
Também gosto muito de música. Escuto muito samba e pagode e, desde o ano passado, voltei a tocar cavaquinho, presente da minha esposa e dos meus filhos. Tocar e cantar me distrai e me faz bem.
E busco dividir com honestidade: trabalho no horário de trabalho e, em casa, estou de fato em casa, com boa parte do fim de semana reservada à família. É um desafio, porque liderança cobra 24 por 7, não tem jeito, é a nossa escala. O meu esforço é real, e insisto em organizar a vida para que cada parte importante (trabalho, exercício físico, hobbies, família) tenha o seu espaço. É a busca do equilíbrio.
O convite
Para o médico que está na “pré-virada”, o recado é um: fazer gestão não é se afastar da medicina. Você continua cuidando, só que de outro jeito. Quando passo quatro, seis horas operando um caso, mudo o desfecho de uma pessoa e da família dela; digamos, quatro, seis vidas. É essencial. Mas quando passo essas mesmas quatro, seis horas fazendo gestão do cuidado, olhando a estrutura como um drone, pensando, organizando, liderando, estou cuidando de 300 mil pessoas, que é a nossa carteira na MedSênior hoje. O cuidado é o mesmo, e você potencializa o seu alcance.
O gestor não deixa de cuidar. Ele escala o cuidado.
A crença errada é achar que o gestor deixa de cuidar. Não deixa: ele escala o cuidado. Isso precisa ser desconstruído. A liderança continua cuidando, e com um cuidado potencializado, um cuidado escalado.
O que eu gostaria de ter sabido antes? O quanto vale ouvir quem já passou por isso. No começo, eu buscava resposta nos livros e nos artigos e olhava pouco para as histórias das pessoas. Se soubesse antes, teria conversado e escutado muito mais. A trajetória dos outros ensina. Fale menos, escute mais.
Para quem quiser continuar a conversa: no Instagram, @marcos.a.jota; no LinkedIn, Marcos G. Adriano Jota. E aqui mesmo, nos comentários, eu respondo.
Fica o convite: suba de altitude, mas nunca solte a mão do paciente. É isso que a gestão do cuidado faz ao transformar o cuidado de um no cuidado de milhares, sem perder de vista um único rosto. E é um trabalho que nunca se dá por pronto: sempre há mais gente para alcançar, e sempre uma forma melhor de cuidar. Por isso, como faço questão de reforçar nos meus posts:
Nós podemos fazer mais e melhor, sempre.