Raízes
Meu nome é Felipe Ricardo de Souza Oliveira, nasci em Santa Fé do Sul, interior de São Paulo. Quando olho para minha trajetória, percebo que ela nunca começou na medicina, começou na curiosidade e no desejo constante de enfrentar desafios.
Desde criança, eu tinha uma relação muito forte com o aprendizado e, principalmente, com ensinar. Eu costumava me imaginar como professor. Sempre tive grande afinidade com as ciências exatas e me destacava especialmente em matemática, física e química. Gostava de entender como as coisas funcionavam e, mais do que isso, de conseguir explicar para outras pessoas.
Durante uma fase importante da minha vida, me mudei com minha família para Colíder, no Mato Grosso. Foi ali que tive uma experiência que marcou profundamente quem eu me tornaria depois. Assim que concluí o ensino médio, recebi uma oportunidade para lecionar em uma escola municipal da cidade, a Escola Atalaia. Ainda muito jovem, comecei a dar aulas para alunos do sexto ao nono ano.
Era uma época diferente, sem a estrutura tecnológica que existe hoje. Muitas atividades eram preparadas manualmente, com mimeógrafo e materiais simples. Mas foi justamente nesse contexto que descobri algo que carrego até hoje: o conhecimento só ganha valor quando transforma a vida de alguém.
Ensinar matemática me mostrou disciplina, responsabilidade e liderança muito antes de eu conhecer esses conceitos formalmente. Depois, já no interior de São Paulo, na região de Presidente Prudente, continuei conciliando estudos e ensino. Entrei em cursinho preparatório e logo comecei a atuar como monitor no Colégio Objetivo de Dracena, auxiliando alunos, tirando dúvidas e construindo meu próprio caminho por meio da educação.
Ao longo dessa trajetória, fui percebendo que aquilo que mais me movia não era apenas resolver problemas técnicos, mas usar conhecimento para gerar impacto real. Meu interesse pelas exatas começou a se conectar com tecnologia, inovação e, posteriormente, com saúde.
Foi nesse processo que encontrei na medicina um espaço onde ciência, pessoas, liderança e transformação caminham juntas. Hoje, cursando Medicina na Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná e entrando no internato, percebo que aquela vontade de ensinar e construir soluções continua exatamente a mesma. Apenas ganhou um novo cenário e um propósito ainda maior.
A virada
Quando entrei na Faculdade de Medicina, imaginava que encontraria um ambiente naturalmente conectado à transformação e à solução de problemas. Mas, ao longo da graduação, comecei a perceber algo que me incomodava: falava-se muito sobre tratar doenças, mas pouco sobre criar soluções, empreender ou construir mudanças estruturais dentro da saúde.
Eu sempre fui movido por resolver problemas. Talvez por isso tenha criado tanta conexão com as ciências exatas durante toda a minha vida. Para mim, inovação nunca foi criar algo diferente por criar; inovação de verdade acontece quando uma ideia sai do papel e melhora concretamente a vida das pessoas.
Foi nesse momento que aconteceu a minha virada de chave.
Eu conheci uma comunidade chamada HackMed e ali encontrei um ecossistema que pensava exatamente dessa forma: profissionais e estudantes usando tecnologia, gestão, criatividade e empreendedorismo para enfrentar desafios reais da saúde. Foi a primeira vez que entendi que eu poderia continuar fazendo aquilo de que sempre gostei, resolver problemas, mas agora dentro da medicina e através da inovação.
A partir daí, mergulhei nesse universo. Comecei a participar de comunidades, workshops, conferências e hackathons em saúde. Passei a enxergar que o médico poderia ocupar outros espaços além da assistência tradicional: poderia criar, liderar, desenvolver soluções e transformar sistemas.
Foi então que decidi levar esse movimento para dentro da instituição onde estudo, a Faculdade de Medicina Evangélica Mackenzie do Paraná.
Nasceu assim a Inova MedMack, uma liga acadêmica voltada para empreendedorismo e inovação em saúde. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, muito ambiciosa: mostrar ao estudante de medicina que ele pode ir além do papel tradicional e entender que também pode empreender, inovar e gerar impacto.
Nada disso aconteceu sozinho. Tivemos abertura institucional e apoio para construir um projeto piloto, que foi abraçado pela direção da faculdade. A Dra. Carmen Marcondes Ribas teve papel importante ao acreditar que valia a pena testar algo novo. Construímos, executamos e mostramos resultado.
Hoje, entrando no terceiro ano da liga, vejo o quanto aquela decisão gerou efeito multiplicador. Levamos estudantes para participar de hackathons e experiências em alguns dos maiores ecossistemas de inovação em saúde do país e do mundo. Vieram reconhecimentos importantes, premiações e menções honrosas, mas o mais valioso foi perceber que começamos a formar médicos com uma visão mais ampla do impacto que podem gerar.
Esse movimento abriu espaço para iniciativas ainda maiores. Participamos da construção de experiências em inovação dentro de grandes eventos, como o Smart City, contribuindo para inserir a saúde como elemento central na discussão sobre cidades inteligentes, porque não existe cidade inteligente sem saúde.
Depois vieram novos desdobramentos: o MIND Summit, criado para discutir inovação, negócios e desenvolvimento na área médica, e mais recentemente o In.mack, nosso Laboratório de Inovação Médica e aceleradora de projetos.
O que começou como uma inquietação pessoal virou um ecossistema. E talvez essa tenha sido a maior descoberta da minha trajetória até aqui: quando você cria espaço para as pessoas acreditarem que podem transformar a saúde, elas transformam.
Quando você cria espaço para as pessoas acreditarem que podem transformar a saúde, elas transformam.
O que eu faço hoje
O mais interessante de olhar para essa trajetória é perceber que aquilo que começou como uma inquietação dentro da faculdade acabou se transformando em um ecossistema de iniciativas conectadas entre si.
Hoje, além de estudante de Medicina e entrando no internato na Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná, atuo diretamente na construção de ambientes que aproximam inovação, liderança e transformação em saúde.
Uma dessas frentes é o In.mack, nosso Laboratório de Inovação Médica do qual hoje sou monitor. O laboratório surgiu como consequência natural de um movimento que começou anos antes, com a criação da liga de inovação e com a construção de uma cultura que mostrasse ao estudante que ele também pode criar soluções e não apenas executá-las. O In.mack nasceu justamente para ser esse espaço onde ideias podem sair do papel, ganhar estrutura e gerar impacto real.
Ao longo do caminho, percebi que inovar também exige liderança. Não basta ter boas ideias se não souber mobilizar pessoas, construir times e tomar decisões. Foi dessa percepção que surgiu um novo projeto: o Mack Lidera, liga acadêmica de liderança e gestão em saúde, da qual sou fundador e presidente.
A proposta do Mack Lidera é preparar o acadêmico para ocupar posições estratégicas dentro da saúde, desenvolvendo competências que tradicionalmente recebem pouco espaço na formação médica. Em parceria com o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie, promovemos masterclasses e experiências voltadas para gestão hospitalar, tomada de decisão, liderança em cenários complexos, comunicação e desenvolvimento de visão sistêmica. O objetivo é formar profissionais capazes não apenas de atender pacientes, mas também de liderar equipes, construir organizações e transformar o sistema.
Além da atuação acadêmica, também tenho orgulho de atuar como embaixador da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS), conectando o ambiente universitário ao ecossistema nacional de inovação em saúde. Hoje, essa parceria fortalece iniciativas dentro do próprio laboratório de inovação e amplia oportunidades para que estudantes e projetos tenham acesso a conexões, conhecimento e desenvolvimento.
Paralelamente, estou vivendo um momento muito especial: a construção da minha primeira startup na área da saúde. Ao lado de três colegas, iniciamos uma jornada empreendedora que recebeu apoio de um investidor e que em breve começará a ganhar forma no mercado. É um projeto na área de oftalmologia que representa, para mim, mais um passo na direção daquilo em que acredito: transformar problemas reais em soluções aplicáveis.
E talvez o que mais me motive seja perceber que esse movimento continua crescendo.
Agora, damos mais um passo importante: estamos envolvidos na organização para sediar uma edição de um hackathon vinculado ao ecossistema de Harvard dentro da própria Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná. Receber estudantes, criar conexões e estimular a construção de soluções em saúde é, para mim, uma forma concreta de continuar ampliando esse movimento.
Hoje, quando olho para tudo isso, percebo que meu trabalho não está apenas em criar projetos. Está em construir ambientes onde outras pessoas também descubram que podem liderar, inovar e transformar a saúde.
Resultados concretos
Quando penso no principal resultado da minha trajetória até aqui, não consigo resumir em uma premiação, em um cargo ou em um projeto específico. O maior case de sucesso que construí foi aprender a conectar pessoas, formar movimentos e criar ecossistemas capazes de continuar crescendo sem depender exclusivamente de mim.
Talvez esse tenha sido o padrão que se repetiu desde o início da minha vida: primeiro ensinando matemática, depois formando grupos, liderando iniciativas e, hoje, criando ambientes onde outras pessoas também conseguem gerar transformação.
Dentro da medicina, esse processo ficou muito claro.
Quando entrei na faculdade, percebi uma lacuna: existiam muitos estudantes brilhantes, com enorme capacidade técnica, mas poucos espaços para discutir inovação, empreendedorismo e liderança aplicada à saúde. Em vez de esperar que isso aparecesse naturalmente, decidi construir.
O primeiro passo foi buscar repertório fora da instituição. Entrei em comunidades, participei de hackathons, eventos, workshops e comecei a entender como funcionavam os ecossistemas que geravam inovação de verdade.
O segundo passo foi trazer essas conexões para dentro da faculdade. Surgiu a Inova MedMack, inicialmente como um projeto piloto. A ideia era simples: criar um ambiente onde estudantes pudessem desenvolver visão de futuro e entender que também poderiam construir soluções para a saúde.
O terceiro passo foi formar pessoas. Mais do que organizar eventos, começamos a criar experiências práticas, incentivar participação em desafios, conectar alunos com hospitais, empresas, inovação e grandes centros.
O quarto passo foi consolidar cultura. Quando percebemos, os alunos já não estavam apenas assistindo conteúdos, estavam participando de hackathons, sendo reconhecidos, desenvolvendo projetos e enxergando possibilidades que antes pareciam distantes.
E então vieram os desdobramentos naturais: novas ligas, participação em eventos nacionais e internacionais, presença em ambientes estratégicos de inovação, congressos, laboratórios e iniciativas que hoje continuam crescendo.
Mas o resultado que mais me marca não aparece em números.
Ele aparece quando vejo um aluno que nunca imaginou empreender entrando em um hackathon pela primeira vez. Quando alguém entende que pode ocupar espaços de liderança. Quando uma ideia deixa de ser conversa e vira projeto.
Ser reconhecido pelo trabalho é gratificante, mas o reconhecimento que mais importa para mim é perceber que aquilo que começou como uma inquietação pessoal hoje gera oportunidades para outras pessoas.
No fim, meu maior resultado não foi criar uma liga, um evento ou um laboratório. Foi ajudar a construir uma cultura onde inovação em saúde deixou de parecer exceção e passou a ser uma possibilidade real.
O resultado que mais me marca não aparece em números.
Propósito e alta performance
Quando as pessoas olham para tudo o que estou construindo, muitas vezes imaginam que exista alguma fórmula de produtividade ou uma ambição sem fim por trás disso. Mas, para mim, o que sustenta tudo isso é algo muito mais simples: gratidão e propósito.
Eu acredito muito que nenhuma construção acontece sozinha. Sou profundamente grato a Deus pelas oportunidades, pelas pessoas que colocou no meu caminho e pelas portas que foram se abrindo ao longo da minha trajetória. E essa gratidão não aparece só quando as coisas dão certo.
Existe uma prática que carrego comigo há muito tempo: eu agradeço antes de entender o resultado. Se algo acontece como eu planejei, eu agradeço. Se não acontece, também agradeço, porque aprendi que nem tudo que parece um “não” naquele momento realmente era um caminho que precisava ser seguido.
Talvez isso tenha me ajudado a construir uma relação mais saudável com resultado e performance. Eu gosto de sonhar grande, gosto de criar, liderar e tirar projetos do papel, mas sem perder a consciência de que o valor das coisas não está apenas na conquista final.
E, para sustentar esse ritmo, eu aprendi que preciso ter momentos de pausa.
Existe um lugar muito especial para mim. Sempre que a rotina aperta, quando preciso pensar melhor ou reorganizar as ideias, eu costumo sair de Curitiba e ir para São Paulo. É um lugar que virou quase um ponto de reencontro comigo mesmo.
Lá eu desacelero. Caminho, pratico esporte, reflito sobre decisões, revisito planos, converso com pessoas importantes, mando mensagens que estavam pendentes e, principalmente, organizo o que está acontecendo dentro de mim.
Curiosamente, muitas das decisões mais importantes da minha vida não nasceram em reuniões ou eventos. Nasceram nesses momentos de silêncio.
Acredito que alta performance não é viver acelerado o tempo todo. É conseguir construir sem perder o sentido do que está sendo construído.
E se existe algo de que eu me recuso a abrir mão é justamente disso: continuar tendo espaço para agradecer, pensar, estar próximo das pessoas que amo e lembrar constantemente por que comecei. Porque, no fim, mais importante do que chegar longe é continuar reconhecendo quem você é durante o caminho.
O convite
Se eu pudesse deixar uma mensagem para o estudante que está começando agora ou para o médico e gestor que sente que precisa recomeçar, seria essa: não tenha medo de mudar de direção quando perceber que existe um caminho que faz mais sentido para você.
A vida é feita de recomeços.
Existe uma ideia que às vezes colocam na nossa cabeça de que existe uma idade certa para começar, uma fase certa para mudar ou um momento ideal para encontrar seu propósito. E a minha história me mostrou justamente o contrário.
Eu entrei na faculdade de Medicina aos 34 anos. E, sinceramente, hoje eu vivo uma das melhores fases da minha vida. Não porque tudo ficou fácil. Não porque existe uma linha reta. Mas porque foi quando eu comecei a alinhar aquilo que eu gosto de fazer com aquilo que gera impacto para outras pessoas.
Eu me encontrei. E quando você encontra um lugar onde propósito, trabalho e contribuição começam a caminhar juntos, existe uma energia diferente para continuar construindo.
Tudo o que estou vivendo hoje, projetos, inovação, liderança, empreendedorismo, conexões, veio acompanhado de muito aprendizado. Todos os dias eu continuo aprendendo. Continuo errando, ajustando rota, conhecendo pessoas e entendendo melhor o mundo e a mim mesmo.
Por isso, para quem está naquele momento de dúvida, minha recomendação prática é: se exponha a experiências novas. Participe de comunidades. Converse com pessoas diferentes. Entre em eventos. Teste ideias. Faça perguntas. Não espere estar pronto para começar.
E, principalmente, procure aquilo que desperta verdadeiramente sua energia. Porque eu acredito muito nisso: quando você faz aquilo que ama e coloca consistência no processo, o resultado acaba chegando. Talvez não no tempo que você imaginava, talvez não no formato que planejou, mas ele vem.
No fim, carreira não é sobre velocidade. É sobre encontrar um caminho que faça sentido continuar percorrendo.
E se a minha trajetória puder ajudar alguém a dar o primeiro passo, vou ficar feliz em conversar. Estou à disposição para trocar experiências, conversar sobre inovação, liderança, empreendedorismo em saúde ou simplesmente ouvir quem também está construindo o próprio caminho.
Instagram: @ricardofhelipe · E-mail: ricardo.fhelipe@gmail.com
Entrevista publicada na Medicina Executiva, a newsletter do Dr. Guilherme Garlipp sobre carreira, gestão, liderança e mercado em saúde.
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