"Valor em saúde" está na boca de todo mundo. Congressistas, gestores, posts em todas as redes sociais, editais de consultoria médica, etc. Virou aquele termo que precisa ser dito para começar qualquer reunião entre negócios de saúde.
E faz sentido que seja. A ideia por trás dela é das mais corretas que a medicina importou nos últimos anos.
Value-based health care, em uma linha: em vez de pagar o sistema por cada procedimento feito, paga-se pelo desfecho do paciente, pelo resultado em saúde que de fato se entrega.
No centro do conceito está uma palavra mais antiga e mais séria: pertinência clínica. Fazer a coisa certa, para o paciente certo, na hora certa. Nem o exame a mais que não muda a conduta, nem a alta apressada que devolve o paciente pior.
Quem trabalha no sistema sabe o tamanho do problema que isso ataca. Boa parte do que se gasta em saúde não vira saúde. Exames repetidos, condutas fragmentadas, paciente rodando de especialista em especialista, descarrilhado da sua trilha de cuidado.
Buscar valor, nesse sentido, não é modismo, é o que separa um sistema que cuida de um sistema que só pensa em faturar. A intenção de quem levanta a bandeira do VBHC, na maioria das vezes, é legítima.
O problema não está no conceito, está no que fizemos com isso.
Tem coisas que pessoalmente me dão um certo asco em ler ou escutar, coisas como "mentoria", "coaching", tudo porque foi banalizado, superutilizado. Agora é o "valor em saúde"!
A palavra entra na moda, todo mundo cola no próprio material, e em pouco tempo ela perde o sentido de tanto ser usada errado, como marketing, mas não como entrega. Quando se começa a entender bem o mercado, dá um certo arrepio ouvir. Fica feio.
E o motivo é quase sempre o mesmo: cada um lê "valor" pela ótica do próprio modelo de negócio.
Para quem fatura por volume, "valor" vira justificativa para produzir mais. Para quem fatura controlando custo, "valor" vira nome bonito para gastar menos. Para quem vende curso, "valor" vira o título do próximo módulo. Cada um encaixa a palavra no que já queria fazer, e chama o resultado de valor.
Não por acaso, depois de anos de discurso, a saúde baseada em valor ainda é exceção na prática brasileira. (Saúde Business / IBRAVS, sobre estudo do setor, 2026.)
É um conceito amplamente reconhecido e pouco monetizado. A ANS e poucas operadoras avançam com iniciativas pontuais, mas ainda falta um modelo que pague de fato pelo desfecho e pela pertinência, não pelo volume.
O reconhecimento de palco é fácil. Mudar o que entra na conta no fim do mês é que é difícil.
E aqui está o ponto que mais importa neste texto. O conceito não tem culpa do uso que fizeram dele.
Valor em saúde, levado a sério, continua sendo a melhor pergunta que um médico ou um gestor pode fazer para aprimorar seu setor ou negócio: o que eu faço aqui melhora de verdade a vida do paciente, ou só move o ponteiro do faturamento?
Quem consegue responder a isso com honestidade some com o exame inútil, organiza o cuidado em torno do desfecho, e mede tudo o que entrega. Isso dá trabalho pra caramba, e quase nunca cabe num bordão.
Por isso vale separar o joio do trigo. Existem médicos, operadoras e hospitais que perseguem valor de verdade: investem em pertinência, acompanham o paciente além do episódio, aceitam ser pagos por resultado. Esses merecem ser reconhecidos pelo nome certo, não confundidos com aqueles que só usam isso como um selo próprio de qualidade assistencial.
O valor em saúde não caiu por terra, só foi soterrado por quem o usou como um adereço do jaleco. Cabe a quem leva o conceito a sério desenterrá-lo, com pertinência, desfecho e a coragem de medir o próprio trabalho, mesmo que isso mude completamente a forma como o faturamento cresce.
E essa, sim, é uma conversa que deve começar antes da próxima reunião de resultado!
Dr. Guilherme Garlipp, médico, executivo em saúde e founder da MedFly.