Todo mundo já escreveu o texto do robô que vem roubar a sua vaga. Eu não vou escrever isso.

O médico não vai ser substituído pela inteligência artificial este ano. Vai ser classificado por ela. É outra conversa, e é a que define o futuro de curto prazo do médico.

Enquanto o debate fica preso na ficção científica, três coisas concretas já estão acontecendo. Uma no seu consultório, duas do outro lado da mesa da operadora. Nenhuma delas depende da sua opinião sobre IA. Elas vão acontecer estando você dentro ou fora da decisão.

Vou te dar as três, na ordem em que vão aparecer na sua rotina.

1. Quem escreve o seu prontuário

A primeira já chegou. É o assistente que escuta a consulta e te devolve o registro pronto.

Scribe, em uma linha: um assistente de IA que ouve a consulta e entrega o prontuário escrito, pra você só revisar e assinar.

A parte que seduz é óbvia. O médico que perde duas, três horas do dia digitando a evolução ganha esse tempo de volta. Ninguém que passou por um plantão inteiro "catando milho" no teclado vai fingir que isso não importa.

A parte que ninguém te conta é a outra. Aquele texto deixa de ser o seu rascunho e vira um dado estruturado, padronizado, (mais) legível por máquina. E o que a máquina padroniza no seu prontuário, a auditoria do outro lado cruza depois, com uma facilidade que a sua letra manuscrita ou digitada nunca permitiu.

A decisão não está em usar ou recusar, e sim em entrar sabendo que a mesma ferramenta que te poupa tempo também vai te expor para setores com os quais o médico normalmente se preocupa pouco ou quase nada, além de que você não vai decidir quem tem acesso ao que ela escreve em seu nome. Só vai assinar.

O registro é prova. Sempre foi.

Outra coisa, meus amigos, se 30% da sua consulta é escrevendo em prontuário, pode ter certeza que este período de ócio não vai ser revertido em café ou bate papo com paciente. Isso é um discurso de novela das oito. Seu tempo vai ser revertido em mais 1 atendimento por hora. Vamos apostar?

2. O paciente que chega com a resposta pronta

Essa você já está vivendo. O paciente senta na sua frente e já passou pela IA antes. Digitou os sintomas, recebeu três hipóteses, às vezes já com o nome de um remédio, e chega meio convencido, quando não chega com o diagnóstico fechado na cabeça.

Isso não vai diminuir. Vai virar a regra.

E tem duas formas erradas de reagir. A primeira é debochar, tratar como uma bobagem de internet, mandar o paciente parar de ler o "Dr. Google". Além de soar arrogante, é datado, e o paciente sai achando que você tem medo da pergunta que ele fez. A segunda é o oposto, seguir a sugestão da máquina só para não discutir e carimbar a hipótese que ele já trouxe. Aí você abre mão da única coisa que o paciente foi buscar em você.

Porque a informação ele já tem. Ela ficou de graça, na palma da mão, e não volta a ser escassa. O que ele ainda não tem é o julgamento. O que fazer com aquela informação, naquele corpo, com aquela história, aquele exame e aquele medo. Isso a IA não entrega, e é exatamente o que você vende.

A decisão é como você se posiciona diante da IA que já falou com o seu paciente antes de você. Usar o que ela disse como o começo da conversa, e não como uma ameaça. O médico que trata o paciente informado como um adversário perde o paciente. O médico que pega a informação que ele trouxe e organiza o que a máquina só listou vira a autoridade da sala.

Você parou de ser pago por saber. Passou a ser pago por decidir.

3. O algoritmo do outro lado da mesa

E aqui está o ponto que mais importa neste texto.

Enquanto o médico ainda decide se adota a IA no consultório, a operadora já adotou. Ela usa modelos para estratificar o risco da carteira, para pontuar a sinistralidade, para sinalizar uma glosa antes de um humano sequer olhar a conta. Você manda o faturamento, e um algoritmo decide se ele é pertinente antes de qualquer auditor bater o olho.

Isso acontece muito mais do que se imagina no sistema.

A conta fica fácil de ler quando você lembra de uma coisa. O resultado, na prática, é o faturamento e o sinistro. A IA da operadora não foi comprada para cuidar melhor do paciente. Foi comprada para proteger a margem. E faz isso muito bem.

Quem entende isso não é o médico que reclama do número de atendimentos no grupo de WhatsApp, e sim aquele médico com perfil de líder e gestor que senta para negociar o contrato sabendo qual lógica o modelo do outro lado persegue.

Ler o algoritmo não significa decorar um código, e sim saber quais indicadores pesam na sua nota, por que a sua conta é sinalizada, o que a operadora chama de "fora do padrão" e como isso vira um descredenciamento hoje ou uma renegociação de contrato no ano seguinte.

A decisão aqui é a mais dura das três. Aprender a entender o algoritmo que te lê, ou seguir sendo lido por ele sem nunca saber pelo quê.

O que as três têm em comum

Repara que nenhuma das três decisões é sobre tecnologia. As três são sobre a mesma coisa, a posse do dado. Quem detém e lê o dado manda. Quem gera o dado e não olha para ele, obedece.

Por isso o médico que arquiva a IA na gaveta do "assunto de futuro" está entregando o presente. Não porque a máquina é mais esperta que ele. Porque, enquanto ele adia a conversa, outro já tomou a decisão no lugar dele.

Não precisa virar engenheiro. Precisa parar de terceirizar a pergunta.

São três perguntas, uma por decisão, para fazer ainda este mês. Quem lê o que a IA escreve no meu prontuário? O que o meu paciente compra de mim que a IA já não deu a ele de graça? Que lógica o algoritmo da operadora persegue quando olha a minha conta?

São três decisões. Você vai tomar as três este ano, querendo ou não. Melhor tomar sabendo.


Medicina Executiva, médico, executivo em saúde e founder da MedFly.