Todo Setembro Amarelo a cena se repete, e você já viu.
O serviço pendura a fitinha amarela no crachá de todo mundo, marca uma palestra, chama um psicólogo convidado e divulga a importância da saúde mental por todos os lados. No auditório aparecem uma dúzia de pessoas. O resto da equipe está exatamente onde a palestra diz que ninguém deveria estar, atolado no plantão, cobrindo os buracos de quem pediu demissão em julho e ainda não foi reposto.
Em outubro a fita sai do crachá, e a escala, a dinâmica e os comandos continuam os mesmos.
Muita gente vai escrever sobre Setembro Amarelo neste mês, e faz bem escrever. Vou puxar por um ângulo diferente aqui, o da agenda do gestor. Na saúde, a prevenção virou pauta de comunicação interna quando deveria ser pauta do operacional.
O número que vai circular, e que não se sustenta
Antes de seguir, preciso resolver um número que você vai ler bastante nos próximos trinta dias.
Vão te dizer que o médico tira a própria vida cinco vezes mais que a população geral. Eu mesmo já ouvi e repeti coisa parecida nas conversas de corredor. A frase não se sustenta.
A revisão mais séria que temos sobre o assunto reuniu nove estudos e bases de dados. Entre as médicas, a mortalidade por suicídio é 46% maior do que entre as mulheres da população geral. Entre os médicos homens, ela é mais baixa que a da população masculina.
(Duarte e colaboradores, Male and Female Physician Suicidality, JAMA Psychiatry, 2020.)
Entendeu isso? O risco existe e é sério, só que ele não está distribuído do jeito que o slogan sugere. Ele tem gênero, e o endereço é o das médicas, que desde o ano passado já são maioria da categoria no Brasil.
(Demografia Médica no Brasil 2025, AMB, FMUSP e Ministério da Saúde.)
E isso tem consequência prática para quem gere. O número redondo entra no slide da campanha, alguém confere a fonte na reunião seguinte, encontra o exagero, e a pauta inteira perde crédito junto com ele. Quem já defendeu orçamento em mesa de diretoria sabe como isso funciona. O dado frouxo derruba o projeto bom.
Os números corretos bastam.
O que sustenta com folga
O tamanho do adoecimento não precisa de exagero nenhum.
Numa pesquisa com 2.147 médicos brasileiros, 32,6% relataram sintomas de burnout e apenas 5,7% tinham o diagnóstico fechado.
(Pesquisa de qualidade de vida dos médicos, Afya, coleta de janeiro a abril de 2025.)
Numa conta de padaria, para cada médico com o diagnóstico na mão existem quase cinco com os sintomas e sem diagnóstico nenhum. Trabalhando normalmente. Atendendo você, a sua mãe e o seu filho.
E não me venha dizer que falta informação. Reconhecer o sintoma é o ofício da categoria. O que trava é operacional, e o gestor conhece cada um dos travamentos.
Quem tira uma semana precisa de alguém que cubra, e quase nunca tem alguém. Quem procura ajuda dentro da própria instituição sabe que aquilo pode reaparecer na conversa sobre a escala do mês seguinte e se prejudicar por isso. E tem a cultura da categoria, que trata o cansaço como fraqueza e o aguentar como virtude, num ofício em que a gente aprende desde o internato que sair mais cedo é deixar o colega na mão.
O comportamento do chefe entra na conta
Se o travamento é operacional, ele tem uma alavanca operacional. E existe um dado sobre isso que eu queria que todo diretor médico do país conhecesse.
Uma pesquisa com 2.813 médicos pediu que cada um desse nota ao comportamento do próprio chefe imediato, em doze itens objetivos. Informar, ouvir, reconhecer, desenvolver, esse tipo de coisa. Depois cruzaram a nota do chefe com o burnout de quem tinha respondido. Cada ponto a mais na nota do líder correspondeu a 3,3% menos chance de burnout e 9% mais chance de satisfação dentro do time dele.
(Shanafelt e colaboradores, Impact of Organizational Leadership on Physician Burnout and Satisfaction, Mayo Clinic Proceedings, 2015.)
Quer dizer que o comportamento do gestor é variável mensurável do adoecimento da equipe. Não é clima, não é sorte e não é fragilidade de geração, é o que o chefe faz de segunda a sexta-feira, logo de manhã.
Eu já escrevi na Medicina Executiva (MEx) sobre a NR-1, que desde maio deste ano obriga a empresa a colocar o risco psicossocial no programa de gerenciamento de riscos, com a fiscalização já em fase punitiva. Quem gere CLT recebeu a conta por escrito. Quem gere PJ vai ter que olhar do mesmo jeito, porque o padrão está sendo estabelecido e deve ser um grande diferencial para a empresa.
O que eu faria neste setembro
Quatro coisas, e todas elas cabem na semana que vem.
- Abrir a escala com a pergunta certa. Quem dobrou plantão nos últimos noventa dias, e quantas vezes. Quem não conseguiu emendar duas folgas seguidas. Quem é o único a cobrir uma especialidade e por isso não pode ficar doente. Isso sai de qualquer planilha de escala numa tarde, e é o retrato de risco mais honesto que o seu serviço vai produzir neste mês.
- Construir a cobertura antes de precisar dela. Enquanto não existir quem cubra, a sua equipe não tem direito de adoecer, e a fita amarela no crachá vira deboche. A cobertura é uma linha de custo, e é a linha que decide se o discurso do serviço é verdadeiro.
- Ter para onde mandar, com nome e telefone. Não vale dizer "procure ajuda". Vale saber quem é o psiquiatra que atende o colega, o que o convênio da equipe cobre de fato, quantas sessões e com que carência. E vale ter o 188 do CVV anotado, que atende de graça, 24 horas por dia, todos os dias.
- Fazer a pergunta direta, sem terceirizar para o RH. Se você desconfia que um médico do seu time está em sofrimento, pergunte a ele, com essas palavras, se ele já pensou em morrer. Perguntar não planta a ideia em ninguém, e isso já foi revisado na literatura.
(Dazzi e colaboradores, Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation?, Psychological Medicine, 2014.)
O que quase todo gestor faz nessa hora é mandar um "qualquer coisa, estou aqui" ou então um "tamo junto" e considerar o assunto endereçado. Isso não endereça nada, meu amigo. Quem está mal não vai bater na sua porta para reivindicar um convite genérico.
O ponto que mais importa neste texto
A prevenção, no serviço de saúde, quase nunca falha por falta de boa intenção. Ela falha porque ninguém colocou o assunto numa planilha, com responsável e com data, do jeito que se faz com a taxa de ocupação e com o custo por leito.
E aqui está o ponto que mais importa neste texto. A saúde da sua equipe é entregável seu. Ela tem indicador, tem responsável e, desde este ano, tem fiscal. Enquanto for tratada como campanha de trinta dias, o serviço vai continuar perdendo gente boa em janeiro e chamando isso de mercado aquecido.
Na escada que eu uso no MEx, adaptada do Pipeline de Liderança do Ram Charan, a passagem do Clínico de Excelência para o Líder de Equipe é exatamente esta. Você deixa de responder pelo que faz com as próprias mãos e passa a responder pelo que acontece com as pessoas que dependem das suas decisões. A escala é uma decisão sua. A cobertura é uma decisão sua. A conversa difícil é uma decisão sua.
(Ram Charan, Stephen Drotter e James Noel, Pipeline de Liderança.)
No MEx Corporate, essa é uma das competências de gestão que eu treino com as equipes.
A fita amarela dura trinta dias. A escala que você monta dura o ano inteiro. A prevenção em saúde mental é entregável de gestão, como qualquer indicador, e a sua parte dela começa na segunda-feira!
Me conta aqui embaixo: o que o seu serviço fez em setembro do ano passado, e o que sobrou disso em outubro? Eu leio todos os comentários, e os melhores viram tema de edição.
E se você tem um colega montando a palestra de setembro agora, manda este texto para ele.
Se você está passando por sofrimento neste momento, o CVV atende no 188, de graça, 24 horas por dia, todos os dias.
Dr. Guilherme Garlipp, médico, executivo em saúde e founder da Medicina Executiva.
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