Quando eu comecei a dar plantão, em 2016, eu morria de medo. Tomava até propranolol pra segurar a taquicardia, é sério. Tinha medo do caso que eu não ia saber conduzir, medo de travar na hora errada, e um medo bem específico, o de fazer bobagem na frente daquela gente topzera das galáxias. Porque no plantão noturno comigo tinha um cirurgião cardíaco, um cirurgião vascular, um cardiologista, um endocrinologista. Feras, cada um com um currículo que intimidava só de ler. E eu, generalista com poucos meses de formado, contando os minutos para o turno acabar sem passar vergonha.
Eu chegava mais cedo para não esbarrar em ninguém sem estar preparado. Estudava os casos duas vezes antes de comentar qualquer coisa perto deles. Naquele plantão, a hierarquia do conhecimento era clara, e eu estava no rodapé dela.
Seis meses depois, o convite para coordenar o serviço chegou. E chegou para mim.
Não chegou para o ex-chefe do serviço de transplante cardíaco, não chegou para nenhuma das feras. Chegou para o generalista recém-formado que estudava escondido para não gaguejar na frente dos outros.
Na época, aquilo me pareceu um erro administrativo. Hoje é a coisa mais clara do mundo para mim.
Vou puxar por um ângulo que eu levei anos para enxergar, e que hoje é bandeira minha. Tudo começou com uma pergunta que eu não tive coragem de fazer em voz alta quando cheguei ali para trabalhar.
O que aquelas feras estavam fazendo ali, dando plantão noturno de clínico na porta do pronto-socorro, ganhando exatamente a mesma coisa que eu, um recém-formado?
Quando a resposta veio, ela foi brutal. Nenhum de nós, naquele plantão, sabia absolutamente nada sobre gestão. E menos ainda sobre o mercado de saúde, sobre como o serviço ganhava dinheiro, sobre por que a operadora pagava de um jeito e não de outro, sobre o que fazia aquele plantão fechar no azul ou no vermelho. A diferença entre mim e as feras não estava na medicina. Estava no fato de que eu era o único incomodado o bastante com essa ignorância para ir atrás dela.
E aqui está o ponto que mais importa neste texto. O título mede com precisão o quanto você sabe sobre a doença. Ele não diz uma única palavra sobre a sua capacidade de conduzir gente, de ler um número de mercado e de enxergar o negócio por dentro.
O chefe do transplante era um gigante na especialidade dele, e um estranho na sala onde as decisões do serviço eram tomadas. Isso não era um defeito dele. O sistema formou aquele homem durante trinta anos para operar corações, e nunca, em nenhum momento, cobrou que ele aprendesse a outra metade. Ninguém aprende sozinho o que ninguém nunca ensinou.
Os títulos abrem a porta. Eles não sentam na cadeira por você.
Demorei para juntar as peças, mas quando juntei, mudou o jeito que eu enxergo a carreira. A liderança em saúde não é entregue para quem coleciona a maior formação. Ela é entregue para quem resolve o problema que todo mundo aprendeu a aceitar, para quem entende a conta que sustenta o serviço, e para quem consegue conduzir uma equipe sem quebrar as pessoas no caminho.
Hoje, quando eu monto um time ou escolho quem vai assumir uma frente, eu faço exatamente a leitura que fizeram comigo em 2016. O título entra na conta, é lógico. Ele prova o preparo clínico, abre a conversa, merece respeito. Mas ele não decide sozinho quem vai liderar.
O que eu procuro está do outro lado do currículo.
Eu procuro quem resolve um problema sem esperar ordem. Quem já perguntou como o serviço é remunerado, em vez de só reclamar do valor da hora. Quem chama a conversa difícil para si em vez de empurrar o atrito com a barriga até virar demissão. Quem aprende rápido a parte do jogo que a faculdade não ensina, porque essa parte também se aprende, e mais rápido do que o mercado quer fazer você acreditar.
A conversa difícil, aliás, é o exame que mais reprova bom médico na gestão. A faculdade te treina para dar a pior notícia do mundo a uma família, e te larga por completo na segunda pior, que é sentar com um colega e dizer que o comportamento dele está quebrando o serviço. Quem aprende a fazer isso com firmeza e sem humilhar já largou na frente de metade dos colegas mais titulados.
E se você está lendo isto de dentro de um plantão, sentindo que é o menos graduado da sala, presta atenção numa coisa. A cadeira de liderança quase nunca vai para o mais titulado. Ela vai para quem os outros procuram quando o problema aparece. Esse perfil não nasce pronto, ele se constrói, uma decisão de cada vez.
Foi o incômodo daquele plantão de 2016 que me tirou da inércia. Eu não era o mais preparado da sala, eu era o mais inconformado com o que eu não sabia. E, no fim, o inconformado com a própria ignorância vai mais longe do que o gênio acomodado no próprio título.
O médico aprende cedo a salvar o paciente. Aprender a liderar, a ler o mercado e a conduzir gente, além de gerir equipes e sistemas, é a outra metade da carreira, e foi para ensinar essa outra metade, com método, que criei a Medicina Executiva.
Medicina Executiva, médico, executivo em saúde e founder da MedFly.
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