Aprendi essa conta na marra, dentro da operação. Ela não fecha nem pra mais, nem pra menos.

Vou te dar uma cena que qualquer um entende, sem precisar acompanhar planilha nenhuma.

Tem um paciente no pronto-socorro que já podia estar em casa, terminando seu tratamento no sofá da sala, com orientação e um retorno marcado. Mas ninguém deu alta. Ele fica ali, ocupando uma maca, esperando "mais um dia de observação" que não muda nada.

Sabe o que é pior, um familiar do mesmo paciente segue bravo, esperando um leito que não aparece nem pra ele nem pro outro, intubado na sala de emergência. E quando você sobe pra enfermaria ou para a UTI pra entender por que não tem vaga, descobre que metade dos internados está lá só esperando terminar uma investigação ou um tratamento que dava pra fazer no ambulatório.

Ou seja, tem gente internada que não precisava, segurando a vaga de gente que precisava e ficou sem. É uma conta de padaria. Não precisa ser médico, nem gestor, pra ver que tem coisa errada aí.

Exagero meu?

Essa cena resume o que eu penso sobre a saúde inteira. O problema quase nunca é fazer muito, e quase nunca é fazer pouco. É errar a dose. Fazer de mais onde devia fazer de menos, e fazer de menos onde devia fazer de mais, muitas vezes no mesmo corredor, no mesmo dia.

A minha resposta pra isso cabe em poucas palavras. Nem mais um, nem menos um.

Pega o exame. O exame que não vai mudar em nada na conduta é exame a mais. E ele nunca é de graça. Acha um "nódulozinho" que ninguém sabe o que é, e aí vem a biópsia (internado), o susto, a segunda opinião, a noite sem dormir.

Virou rotina, aliás. Abre o Instagram e tem gente vendendo check-up completo como se fosse programa de milhagem, quanto mais exame, mais saudável você seria. Não é bem assim. Exame demais assusta mais gente do que salva. Teve estudo sério que foi atrás disso. A Universidade de Sydney vasculhou quase mil publicações sobre exames no Instagram e no TikTok e viu que a maioria engana, promete demais e esconde o risco de a pessoa acabar tratando um problema que nunca ia lhe fazer mal. (Universidade de Sydney, 2025.)

Agora, cuidado com o outro lado, porque aqui tem uma armadilha. Na medicina, ninguém confessa que fez de menos. Fazer de menos é negligência, e quem faz jura de pé junto que era exatamente o indicado. O exame que faltou não entra no relatório de desperdício. Ele aparece lá na frente, no diagnóstico que chegou tarde, quando já ficou mais caro e a chance, menor.

A falta anda sempre disfarçada de bom senso.

Por isso eu não compro nem o papo do "quanto mais, melhor", nem o do "cortar custo a qualquer preço". Os dois erram com o paciente. Nem mais um exame, nem menos um.

Volta pro leito da primeira cena. Um dia de internação a mais é risco de infecção, é uma conta que fica inflada, é a vaga que faltou pro sujeito do PS. Um dia a menos, a alta apressada pra bater meta de tempo de permanência, devolve o paciente pior, que reinterna numa próxima semana e sai o dobro do preço. Nem mais um dia, nem menos um.

Com procedimento é a mesma história. A cirurgia que não precisava ser feita é dano puro, com anestesia, risco, tempo de recuperação, perda funcional. A que precisava e foi empurrada com a barriga vira urgência lá na frente, mais cara e com menos opções de escolha pra todo mundo. Nem mais um, nem menos um.

E a medicação, onde isso fica escancarado. O antibiótico que o paciente exige e o médico prescreve só pra não ouvir reclamação não trata nada, e ainda ajuda a criar bactéria resistente, que é um problema que vai bater na porta de todos nós depois. Do outro lado, o antibiótico certo, na hora certa, que não foi dado, mata. Nem mais um comprimido, nem menos um.

O que acontece se eu não fizer nada?

E não pensa que isso é implicância minha. Quando a OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, aquele clube dos países ricos que vive medindo essas coisas, foi pôr no papel, sobrou a conta de que perto de um quinto de tudo que o mundo gasta em saúde não vira saúde nenhuma. Um quinto. Imagina na sua casa, um de cada cinco reais indo pro ralo todo mês. (OCDE, 2017.)

Aqui no Brasil, o IESS, o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, calcula esse desperdício da saúde privada em dezenas de bilhões de reais por ano. (IESS, 2022.)

Mas repara numa coisa. Todo esse esforço de medir mede bem o que sobra, o exame a mais, a conta inflada. Ninguém consegue medir direito o que faltou, porque o que faltou se esconde atrás da desculpa de que "não era necessário". E é justamente aí que o barato sai caro.

Existe uma palavra velha pra tudo isso, e ela não é economia nem acesso, é pertinência. Fazer a coisa certa, pro paciente certo, na hora certa. Tem até um movimento internacional, o Choosing Wisely, com listas feitas por sociedades médicas nossas, que espremeu a pertinência numa única pergunta. O que acontece se eu não fizer nada?

Pertinência não é gastar menos, é gastar no ponto.

O gestor que corta pelo corte, só pra fechar o balanço do mês, não está gerindo, está empurrando a conta pra frente. E o médico que pede tudo, com medo de processo ou de olho no faturamento, não toma decisões pensando no paciente ou no sistema, só carimba. Os dois entregam menos saúde por real gasto, e os dois quebram o sistema, cada um do seu jeito.

Porque é disso que se trata quando falam em sustentabilidade, essa palavra que enche a boca de um palestrante no congresso, mas que no fundo busca de fato sustentar o próprio sistema, para mais ou para menos. E aí é que está o pulo do gato, nenhum serviço de saúde se sustenta gastando com o que não vira desfecho. E nenhum se sustenta economizando no que teria evitado uma conta maior lá na frente. São os modelos de mercado tradicionais, que vivem reclamando dos órgãos reguladores, que criam um ROL, DUTs, regras e mais regras, tentando dizer em linguagem técnica, "galera, caramba, nem um a mais, nem um a menos!".

Não vou fechar com aquele discurso bonito de "vamos construir juntos uma saúde melhor pra todos". Isso não paga o leito, não trata ninguém, é só o mesmo papinho furado de sempre.

O que resolve é chato e é simples. Olhar cada exame, cada dia de internação, cada procedimento, cada comprimido, e fazer a pergunta da padaria. Precisa disso? Precisa disso agora? E ter a coragem de segurar o que sobra e liberar o que falta com a mesma mão firme.

Nem mais um, nem menos um. E pronto.


Dr. Guilherme Garlipp, médico, executivo em saúde e founder da MedFly.