Toda vez que tenho a oportunidade de conversar com médicos mais novos, que pegaram justamente este momento da medicina, a transição entre as perspectivas de antes da faculdade e a realidade de seis anos depois, percebo com frequência um questionamento difícil de considerar normal e impossível de não achar preocupante. Uma frase discreta, mas que escancara uma angústia da profissão, sobretudo nesta geração: "às vezes acho que escolhi errado".
Boa parte dos médicos já se pegou no plantão, umas três da manhã, se perguntando se não teria sido melhor ter feito outra coisa. Não engenharia, não direito. Outra medicina, com outra rotina, outro salário, outra sensação de estar no controle da própria vida. Todos esses já sabiam que teriam que passar, na maioria das vezes, por um processo de aprendizagem, com crescimento gradual, plantões noturnos, finais de semana. Até aí, tudo bem, até porque apoio o crescimento da carreira médica pela prática, pela vivência. É normal. O que não é normal é quando isso vira a única alternativa e o crescimento de carreira não aparece como poderia e deveria.
E olha, isso não é frescura de um ou outro médico. Numa pesquisa da McCann Health com 2 mil médicos de 16 países, o Brasil incluído, dois em cada três disseram dormir mal por causa da frustração com o trabalho (Exame, 2018). Dois em cada três. Entendeu isso? São 66 em cada 100. Não é caso isolado.
Convivo com esse arrependimento há anos e só vejo aumentar. E quase sempre ele chega com o diagnóstico trocado.
O médico que sofre dessa angústia tenta sempre achar um culpado. Acha que o problema foi a especialidade. Ou a cidade. Ou que faltou mais um título no currículo. Aí emenda mais uma pós, mais um curso, na fé de que essa é a próxima virada, que vai trazer grandes resultados e tapar todos os buracos da insatisfação pessoal. Raramente tapa.
Tem contexto por trás disso, claro. Quando eu me formei, o país já tinha médico à beça. Hoje são mais de 575 mil na ativa, caminhando pra 653 mil até o fim do ano, segundo a Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP, AMB e Ministério da Saúde). Em 2000, eram uns 174 mil. Triplicou em 25 anos. Isso todo mundo sabe, mas vale sempre lembrar.
Com toda essa concentração, ser bom no que faz virou o piso, não o teto. Todo mundo à sua volta também é bom. E a competência clínica, sozinha, decide cada vez menos sobre a sua vida. Sobre onde você trabalha, quanto ganha, com quem você senta pra decidir as coisas.
E é aqui que eu acho que mora a real.
O que corrói o médico quase nunca é a medicina em si. É a carreira tocada no automático, aquele ir levando, aceitar o plantão que apareceu, trocar de serviço quando cansa do ambiente ou do gestor, e nunca ter sentado pra pensar e decidir pra onde realmente quer ir. Até porque, na grande maioria das vezes, já se construiu uma família e há muitas responsabilidades ao redor disso.
Repara que eu não estou dizendo que todo médico tem que virar gestor, abrir clínica ou subir pra diretoria. Longe disso. Tem médico que quer passar a vida na assistência, no consultório, na beira do leito, e isso é ótimo. É uma das escolhas mais bonitas da profissão, e o país precisa desse médico mais do que nunca.
O problema não está em onde você quer ficar. Ficar na assistência por decisão é uma coisa. Ficar porque a vida foi empurrando é outra bem diferente, e é essa segunda que cobra a conta lá na frente, na forma do tal arrependimento.
Carreira, pra mim, se cuida como a gente cuida de paciente. Com intenção. Você não conduz um caso no escuro, sem examinar, sem hipótese, sem plano de acompanhamento. Mas a própria carreira, muito médico bom conduz exatamente assim, no susto, reagindo ao que aparece na frente.
E se você decidir que quer crescer, cresça sabendo que crescer tem etapa. Não se pula da assistência pra uma cadeira de decisão do dia pra noite. Existe uma escada, e cada degrau pede uma habilidade que a residência não ensinou. Conversar com quem decide, entender a conta que fecha ou não fecha no serviço, montar e segurar equipe, se posicionar, cobrar o seu valor sem pedir desculpa.
Ninguém sobe essa escada por acaso. Sobe quem enxergou os degraus e escolheu subir, um de cada vez.
E se você não quiser escalar, tudo bem também. Só decida isso de propósito, olhando de frente, em vez de descobrir daqui a dez anos que a decisão foi tomada por omissão.
Então, se bate em você essa sensação de ter errado o caminho, faz o que você faria com um caso difícil. Para, examina, decide. Onde eu estou? É aqui que eu quero estar? Se for, fico com intenção, e não por inércia. Se não for, qual é o próximo degrau e o que me falta pra chegar lá?
Escolhe uma coisa só e corre atrás nos próximos seis meses, um ano. Coloca um prazo. Uma coisa só! Ter um rumo pesa mais do que mais um diploma pendurado na parede.
É muito triste acompanhar os dados da saúde do médico e ver esse tanto de gente dormindo mal, adoecendo e infeliz com o que faz, numa profissão tão importante, significativa, única e abençoada.
Pretendo contribuir com a construção de uma carreira médica legítima, autêntica e exclusiva para cada caso. Por isso criei a Medicina Executiva, que muito além de uma newsletter é uma estrutura de carreira para médicos (e não médicos) migrarem da assistência para a gestão em saúde.
Lembre-se de que a gestão começa pela liderança de si mesmo. Então, mesmo que não seja seu desejo se tornar um grande CEO, a Medicina Executiva é pra você.
Agora, se o seu objetivo é fazer as passagens de médico assistencial a coordenador, gerente, diretor, COO, CEO, não existe a menor possibilidade de você não fazer parte deste seleto grupo.
Medicina Executiva, médico, executivo em saúde e founder da MedFly.
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