Interoperabilidade de dados é um tema obrigatório para qualquer nível de gestão em saúde.

Imagine que você assume a gestão de um serviço amanhã.

Logo no primeiro dia, descobre que o sistema do hospital não conversa com o da operadora, que o laboratório manda o resultado em PDF, e que metade do histórico do paciente vive em papel, na sacolinha da radiografia de 1992.

Você assumiu um serviço pouco ou nada interconectado e vai responder por ele.

Essa escuridão quanto aos dados tem um nome técnico: falta de interoperabilidade. Em uma linha, interoperabilidade é a capacidade de sistemas diferentes trocarem dados (códigos, imagens, arquivos, etc) e se entenderem.

E aqui está o ponto que mais importa neste texto: imaginar que o assunto de troca de informações digitais entre sistemas e setores é uma atribuição única e exclusiva de quem cuida da tecnologia do hospital, que normalmente é a TI, é um baita erro.

Porque, sem os dados conversando, você vai pagar três vezes (pelo menos).

Paga em dinheiro, com exames repetidos sem necessidade, glosas que vai tomar e muito retrabalho, que é um custo quase ninguém contabiliza. Paga também em risco, porque a decisão tomada sem o histórico completo é uma decisão pela metade. E por último, paga em exposição, porque os dados de saúde são sensíveis pela LGPD, e o vazamento ou uso indevido, com WhatsApp, e-mail, respinga exatamente em quem faz a gestão, não em quem programou.

O movimento já está em curso, e ignorá-lo não vai te proteger dele.

O Brasil já tem a Rede Nacional de Dados em Saúde, a RNDS, empurrando a portabilidade do dado do paciente. Os grandes players estão se organizando em torno de padrões como o FHIR, o protocolo que virou a língua comum da troca de dados em saúde no mundo. Quando isso se consolidar, e vai consolidar, o gestor que não entender a engrenagem vai comprar um sistema, assinar o contrato e tomar uma decisão sem saber o que está assinando de fato.

E o mercado é cruel com esse tipo de defasagem.

O gestor que trata interoperabilidade como “coisa de TI” não perde o cargo num dia. Ele perde aos poucos, virando aquele que precisa pedir para alguém traduzir cada decisão, até o dia em que contratam alguém que já fala a língua.

A vaga não some. Ela troca de dono.

A boa notícia é que sair desse escuro não exige você virar engenheiro de dados, trocar o sistema inteiro, nem ter o orçamento de um Sírio-Libanês.

É muito possível começar pequeno, no seu pedaço, com o problema que já te incomoda hoje.

Pega o exemplo mais banal do seu plantão. O resultado do Fleury chega em PDF, alguém da sua equipe redigita o valor no Tasy, manualmente, e de vez em quando troca um número ou esquece de anexar. Isso é só um dos seus gargalos com dados. Custa tempo de quem digita, atrasa ou altera uma conduta e abre uma baita porta para um erro de medicação, que pode ser gravíssimo.

E é exatamente nesta linha de raciocínio que quero te incentivar a começar.

No curto prazo, o que resolve quase não custa dinheiro. Custa atenção. É sentar e mapear onde o dado emperra (entre o laboratório e o prontuário, entre a enfermagem e a farmácia, entre o hospital e a operadora), padronizar como a sua equipe registra a informação e criar soluções locais de proteção e eficiência até que uma decisão maior resolva isso por completo. Isso é uma adaptação de processos, combinada a uma equipe de alto desempenho, gerida por um líder proativo e preocupado.

O mercado de saúde ainda tropeça no escuro, nas coisas simples e pequenas.

No médio prazo, vem a integração de verdade: por exemplo, fazer o Tasy e o Fleury falarem a mesma língua, sem ninguém no meio digitando na mão. E aqui está a parte que pouca gente sabe: ligar um sistema no outro hoje é bem mais barato e rápido do que era há alguns anos, mas vai depender da “boa vontade” da alta gestão. Onde isso já foi feito, os exames repetidos caíram, a glosa caiu, o retrabalho caiu. A integração se paga sozinha.

No longo prazo, o dado do paciente vira portátil de verdade, anda junto com ele de um serviço para o outro. E ao contrário do que o medo do custo faz a gente pensar, quem já trilhou esse caminho descobriu que ele se paga durante a obra, e não só lá na frente. Você não investe para colher daqui a dez anos. Você colhe no caminho.

Agora olhe o outro lado, de quem deixou o dado solto.

Se um grupo de WhatsApp com informações dos pacientes, processos do hospital e afins for exposto por uma bobagem, uma mensagem errada ou um compartilhamento equivocado, vira um problemão.

Repare numa coisa: uma consequência grave de exposição de dados quase sempre vem da banalização da informação no dia a dia. O vazamento acontece por uma bobagem, mas a causa raiz está numa falha de gestão pequena, lá na ponta.

Então, veja só que interessante.

Você não precisa resolver a interoperabilidade do hospital inteiro. Precisa olhar o seu gargalo, o do seu plantão, o da sua equipe, e fazer três perguntas simples: onde o meu dado emperra hoje, quanto isso me custa em tempo e risco, e o que eu posso cobrar de quem me vende o sistema. Quem faz essas perguntas no próprio nível já lidera com mais luz que a média.

Comece pequeno. Comece pelo PDF do laboratório que te irrita toda semana. Resolva o gargalo que é seu, do seu jeito, no seu nível.

O resto do mercado ainda tropeça no escuro, nas coisas simples e pequenas.

Essa é uma grande oportunidade de crescer na sua carreira, tomando decisões que impactam a sua rotina (micro), mas que protegem todo o sistema (macro).


Dr. Guilherme Garlipp, médico, executivo em saúde e founder da MedFly.