Muita gente já escreveu sobre o burnout entre os profissionais de saúde, em especial entre os médicos. Vou puxar por um ângulo que defendo há anos. Todo médico já ouviu o mesmo conselho. Durma melhor, medite, faça terapia, encontre o seu equilíbrio. O recado aponta sempre para o mesmo lugar: o problema é você, e a saída também.

Eu trabalho com gestão de saúde há tempo suficiente para dizer que essa conta nunca fecha. Quem adoece de trabalho raramente é quem desenhou o trabalho.

Os números já saíram do campo da percepção. Em 2025, cerca de 45% dos médicos brasileiros conviviam com algum transtorno mental, e 58,2% relataram já ter vivido algum grau de esgotamento ligado ao trabalho. Pesquisa "Retratos da Saúde do Médico 2025", Afya (2.147 respondentes).

Entendeu isso? Quer dizer que praticamente 1 em cada 2 médicos convive com algum sofrimento mental, e mais da metade já passou pelo esgotamento.

E não é um drama só da nossa categoria. O país inteiro adoeceu de trabalho. Em 2024, o INSS concedeu 472 mil afastamentos por transtornos mentais, 68% a mais que no ano anterior e o maior número em dez anos, com a ansiedade na liderança. Levantamento da ANAMT com dados oficiais do INSS, janeiro de 2026.

Mas esse dado não está aqui para amenizar o problema de saúde mental do médico. Está aqui para mostrar o tamanho dele.

Quando um indicador sobe nessa velocidade em todo lugar ao mesmo tempo, tratar cada caso como falha de caráter, de organização ou de equilíbrio é, no mínimo, ingênuo.

A própria definição oficial entrega o ponto. A Organização Mundial da Saúde classifica o burnout como "fenômeno ocupacional, resultado de estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso". Classificação Internacional de Doenças, CID-11, OMS.

Leia de novo a parte final. Que não foi gerenciado. A autoridade máxima em saúde coloca a origem do problema na gestão do trabalho, não na têmpera de quem trabalha.

E faz todo sentido para quem viu, viveu e desenhou a operação por dentro. O burnout em escala não é o retrato de uma geração frágil, é o retrato de uma operação mal desenhada: escala dimensionada para cumprir uma estatística e não para caber num ser humano, meta que ninguém alcança sem se queimar física, mental e moralmente, plantão dobrado virando regra, autonomia zero sobre a própria agenda. São variáveis de gestão. Todas mensuráveis, todas ajustáveis.

Repare quem mais aparece nessas estatísticas. No grupo até 35 anos, metade dos médicos já carrega algum desses diagnósticos. Pesquisa "Retratos da Saúde do Médico 2025", Afya.

Faça a conta. Entra-se na faculdade aos 18, são seis anos de curso e pelo menos dois de residência. Aos 35, o médico tem menos de dez anos de formado. Ou seja, o esgotamento bate forte no começo da carreira, não no fim dela.

Se fosse questão de fibra, os mais novos seriam os mais resistentes, mas são justamente os mais atingidos. Também são os que pegam a pior escala, a residência puxada, o plantão noturno, o início de carreira sem poder nenhum de dizer não. Não é a idade que explica esse número, é o lugar que eles ocupam na operação.

Em mais de uma operação que ajudei a coordenar, a conta se repetia. Cortava-se uma vaga para espremer a sinistralidade, e um trimestre depois chegavam os pedidos: demissão, redução de carga horária, troca de setor. A economia aparece rápido na planilha. O custo aparece dobrado no trimestre seguinte, em rotatividade, em hora extra de quem ficou para segurar as pontas de quem saiu, e no erro de gente cansada.

No fundo, o que faltava quase sempre era informação. Equipe no escuro perde o controle antes de perder gente.

E o médico, no meio disso, começa a duvidar da própria escolha. Antes dos 35, com menos de dez anos de formado, já se pergunta se era isso que queria, se valeu a pena, se o propósito ainda está de pé. Daí nascem as rodas de conversa de corredor. A de que a medicina piorou, que não dá mais o retorno de antigamente, que não compensa o sacrifício.

Em mais de dez anos de gestão em saúde, aprendi que ensinar o médico é a melhor forma de ter uma equipe saudável, engajada e eficiente. Ensinar medicina? De jeito nenhum. Ensinar o porquê das coisas, os motivos por trás das decisões e das mudanças. Quem acha que o médico só quer atender e ir embora se engana. Ele quer saber por que está ali, o que precisa entregar e o que esperam dele.

Quanto mais rápido o gestor abre o jogo, mais óbvio o trabalho fica para o médico. E aí ele decide logo, se quer ficar, se está disposto a pagar o preço, se aquele é o lugar certo para a carreira dele naquele momento.

Uma prática que dava muito resultado eram reuniões online de 15 minutos, ao meio-dia de sexta. Começava 12h em ponto, e eu cronometrava. 15 minutos, no máximo. Chamava de "Expresso do Meio-Dia". A pauta ia antes nos grupos, para cada um entrar já sabendo o assunto. Não atrapalhava a operação. Pelo contrário, dava pertencimento, orientação, a sensação de que alguém estava olhando. No fim, eu deixava um canal aberto para quem quisesse tratar algo individualmente.

E aqui está o ponto que mais importa neste texto. Se o esgotamento é resultado de gestão, ele entra numa planilha e na estratégia da empresa. E o que entra numa planilha tem responsável, tem meta e pode ser cobrado.

Desde 26 de maio de 2026, esse responsável tem nome e tem prazo. A nova NR-1 passou a exigir que toda empresa com empregados CLT inclua os riscos psicossociais (sobrecarga, metas inalcançáveis, assédio) no seu PGR, o Programa de Gerenciamento de Riscos, e a fiscalização já entrou na fase punitiva. Norma Regulamentadora 1, Ministério do Trabalho e Emprego (fase punitiva desde 26/05/2026).

Tratar burnout como falha de caráter, de organização ou de equilíbrio é, no mínimo, ingênuo.

Ou seja, o que muita gente tratava como fragilidade pessoal virou, no mesmo mês, risco ocupacional auditável. A escala que ninguém media agora precisa ser medida. O serviço que finge que a jornada está saudável passou a carregar passivo.

A pejotização, por enquanto, fica de fora desse guarda-chuva. A norma alcança o vínculo CLT, e boa parte de nós atende como PJ. Mas a direção do mercado está dada, e o bom gestor entende o recado. Quem contrata e quem gere vai ter que olhar para esse indicador de qualquer forma, porque ele já está sendo medido na porta ao lado.

Para o médico que sente o esgotamento na pele, fica uma virada de leitura. Antes de perguntar o que há de errado com você, pergunte o que há de errado com o desenho. A sua escala cabe num ser humano? A meta cabe na jornada? Você decide alguma coisa sobre o próprio dia? Se as respostas forem ruins, o problema não está na sua resiliência, e sim em quem montou a conta.

E para o médico que virou gestor, ou pretende virar, o recado é mais duro. A saúde da sua equipe é entregável seu, com indicador, com meta e, a partir de agora, com fiscal. Tratar isso como "coisa de RH" deixou de ser opção. E às vezes começa com quinze minutos de sexta-feira.

O burnout do médico tem dono. Quem entende isso para de se culpar e começa a cobrar a conta de quem de fato a montou!


Dr. Guilherme Garlipp, médico, executivo em saúde e founder da MedFly.